Império da acefalia

fevereiro 9, 2010

Recentemente, ao fazer uma compra de uma lente para câmera fotográfica ouço um comentário que me deixou intrigado: “Você sabe como é, o ano só começa depois do carnaval mesmo”. Que coisa abismal, um mês e meio de preparação para a “maior festa do planeta”! Vale ressaltar que sou morador da primeira capital do Brasil, a outrora São Salvador da Bahia de Todos os Santos, terra em que esta tão abençoada festa da carne é super-valorizada.

Pois bem, o carnaval  traz uma série de significados implícitos. Sua origem é inegavelmente popular, o momento que antecede os compromissos religiosos de abster-se da “carne”. Sem dúvida, em diversos locais o carnaval ainda é uma festa autêntica e popular, mas o que se vê na Bahia é uma estrutura midiático-capitalista muito excludente e de tendências cruéis e impositivas.

Não concordo totalmente com a Escola de Frankfurt, movimento filosófico estudado nas faculdades de comunicação principalmente, que além de cunhar o termo “indústria cultural” estudou os efeitos da modalidade massiva da cultura e seus aspectos, porém, não consigo imaginar que a música tocada no carnaval da Bahia não seja algo completamente baseado em fórmulas para o sucesso e que seu conteúdo tenha sempre uma tendência a estimular a apatia política e crítica. “Du da da”, “pareô parararará eô”, “aê ê ê ê ô ô ô” não são lá exemplos de músicas que provocam algum tipo de atividade cerebral útil.

É isso aí, não é o reino da folia, e sim o império da acefalia, o que há de popular numa festa restrita pelas cordas, em que é preciso desembolsar 800 reais para participar decentemente? Nisto a galera se mata o ano todo, juntando o dinheiro pois no carnaval tem que ver o “Chicletão”, não faz diferença mais nada, o importante é ver o careca-cabeludo, ir à praia, encher o carro de alto-falantes e ser o porretão, mesmo tomando facada na barriga no carnavel, estimulando o ócio improdutivo e incomodando os outros com seu gosto musical, sem pensar que não é o gosto de várias pessoas.

É absolutamente insuportável ver toda essa euforia midiática em relação a essa festa, ela corrobora uma série de valores terríveis de que se alguém não gostar do carnaval é alguém que não gosta de se divertir, que provavelmente tem alguma doença mental ou desvio sério de caráter por preferir ficar em casa ouvindo Kiss ou assistindo O Poderoso Chefão. Tudo isto é imposição de um modelo adotado pela maioria que de modo algum é aplicável a todos, deixem-nos em paz, mesmo que sejamos malucos e idiotas para vocês!