Clássicos – Somewhere In Time – Iron Maiden

dezembro 22, 2009

Pois é, continuo sofrendo do mesmo mal da falta de continuidade, porém, não do esquecimento. Sigo então com a análise dos meus cinco álbuns preferidos, álbuns essenciais para minha formação musical, como apreciador e músico de fato. O Iron Maiden, como já citei diversas vezes neste blog, é minha banda preferida e muito do que hoje componho tem um quê do Iron, tanto na parte musical como na temática das letras, que me fascinou desde o princípio com seus temas existencialistas, épicos e históricos.

O Iron Maiden, sempre capitaneado pelo baixista e fundador do grupo Steve Harris, iniciou suas atividades em 1976, mas só gravou seu álbum de estréia em 1980, com um título homônimo. Após algumas trocas de integrantes e ter alcançado o estrelato mundial, com o ápice na memorável World Slavery Tour, do disco Powerslave, lançado em 1984, o Iron Maiden buscou novos rumos e uma adequação às tendências musicais da época, o que gerou o disco Somewhere In Time, numa fase experimental.

Assumo que há uma grande memória afetiva pessoal em relação a este álbum, mas sua riqueza artística vai além de uma boa lembrança. Exatamente neste álbum, de 1986, o Iron Maiden passou a utilizar sintetizadores nas suas músicas, o que até então não havia ocorrido, já que o quinteto prezava por um som cru, direto no amplificador. Este novo recurso causou desconfiança nos fãs, contudo, o clima futurista baseado no cult Blade Runner deu uma aura completamente diferenciada ao trabalho, bem oitentista, o que, particulamente me agrada muito, já que sou um apreciador confesso da década.

A faixa de abertura, Caught Somewhere In Time já leva o ouvinte diretamente para os anos 80, e o timbre da guitarra, apesar de perder força nos powerchords ganha muito para execuções melódicas, com aquele timbre sem médio e muita ambientação com echo e reverb. É uma música empolgante, galopada e cheia de solos e dobras de guitarras, como é habitual no Iron Maiden.

A canção seguinte foi um dos singles do álbum. Wasted Years é uma música belíssima, composta pelo guitarrista Adrian Smith, e seu clima nostálgico fez com que ela se tornasse por muito tempo minha música preferida. A linha melódica do final do solo de guitarra, em choque proposital com o início do refrão é uma das coisas mais fantásticas que pude presenciar na música. A letra trata da solidão das turnês, o que já dava indícios do cansaço de Adrian Smith, que deixou a banda em 1990, após a turnê do disco Seventh Son of a Seventh Son, para retornar nove anos mais tarde.

Sea of Madness, terceira faixa do álbum, é outra composição de Adrian Smith, e possui um clima extremamente melódico e melancólico, como é típico das composições do guitarrista. Mais uma vez, o solo é algo digno de destaque, já que Adrian Smith e Dave Murray pareciam estar no máximo da sintonia musical, além do vocal extremamente competente de Bruce Dickinson e a base consistente fornecida por Steve Harris e Nicko McBrain.

A música seguinte, Heaven Can Wait é outra música memorável na carreira do Iron Maiden. Com seus mais de sete minutos de duração, uma experiência de quase morte é narrada de forma poética e não há muito o que falar dela, trata-se de outro clássico imortal, uma música absolutamente soberba, empolgante, épica, em suma, tudo aquilo que só a Donzela de Ferro é capaz de proporcionar. Detalhe para o coro no meio da música, cantado por um grupo de pessoas que conheceu a banda num bar e foram chamadas para gravar este trecho. O nome do bar está escondido na capa do disco, entre inúmeras outras referências dentro da ilustração de Derek Riggs.

The Loneliness of the Long Distance Runner é uma composição de Steve Harris e se baseia num filme, já que o baixista é um grande apreciador de cinema e literatura. Segue a tendência das músicas longas em relação ao padrão comercial, com as dobras de guitarra e todas os caracteres próprios do Iron Maiden. O Somewhere In Time é talvez o álbum que melhor represente o heavy metal diferenciado que o grupo faz.

Stranger in a Strange Land, outra composição de Adrian Smith, é uma música que destoa do ritmo até então acelerado do disco, é o segundo single do álbum, e possui uma melodia incomum, e o solo mais belo de todo o disco. O timbre recheado de ambientação reforçou bastante a intenção melódica e poética da composição.

Déjà-Vu é a única composição de Dave Murray do disco, em parceria com Steve Harris, e como fica evidente, trata da sensação do déjá-vu, sensação de já ter vivido ou visto algo antes diante de algo novo. Acredito que esse é a música mais fraca do disco, mas é um bom aperitivo para o que vem a seguir, a épica e magistral Alexander, the Great, que narra a vida de Alexandre, o Grande, e dispensa maiores apresentações, o porém é que esta música nunca foi executada ao vivo, mesmo sendo sempre lembrada pelos fãs. Com tudo isto, o Somewhere In Time é um disco ímpar para o Iron Maiden e para o Heavy Metal, que merece ser recordado sempre. além de ser posto no seu devido lugar de destaque ao qual ele foi preterido por muito tempo.


Roll Over João Gilberto!

dezembro 16, 2009

Por diversas vezes me deparo com seres que gostam de se auto-afirmar como nacionalistas ícones máximos da cultura baiana. Tais seres, como pressuposto, precisam ter como gosto musical aqueles chatinhos da bossa nova, e via de regra, moram em bairros da falsa Salvador. Acredito que este é o segundo texto a tratar disto, o problema é que o povo é renitente! O pobre moço que escreve estes textos, para eles, é um reles entreguista americanizado alienado acéfalo incapaz de apreciar a verdadeira arte pura e plena.

O que há de tipicamente brasileiro numa manifestação apropriada do samba, este último verdadeiramente popular, e da sua junção com o jazz, há muito um ritmo restrito (e nem por isto quer dizer melhor, já que é apenas uma questão de estética)? É fácil apontar o rock como ritmo elitista tendo como fundamento a exposição estereotipada que via de regra os meios de comunicação tratam. Acredito que os trabalhos musicais, para serem de fato relevantes, devem ser dotados de um conteúdo (o que é perfeitamente questionável) e um apelo popular. De que adianta tratar de toda a problemática histórico-político-social do Brasil e só meia dúzia escutar e entender sem poder se manisfestar com aplausos ou qualquer ruído? O negócio é o sambão de Bezerra e o rockão do “Roll Over Beethoven”!

Ainda por cima querem apregoar uma falsa sensação de representação e pertencimento a algo que é completamente alheio a eles. O nome original de Salvador é São Salvador da Bahia de Todos os Santos. Por conseguinte, morar na Pituba é morar em São Salvador do Oceano Atlântico. Salvador original tem 460 anos, enquanto a ocupação da área da orla tem menos de 100 anos. Aqui a crítica é muito mais para o direcionamento das políticas públicas que abandonaram a verdadeira Salvador, voltada para a baía que batiza o estado, ao relento e então preferiram construir uma cidade nova. De qualquer forma, no alto do seu duplex, evidentemente distinto do perfil dos quase três milhões de moradores da nossa cidade, é simples se assumir como a mais pura representação da baianidade-afro-brasileira, sendo de fato comunistóide de shopping.

Portanto, me deixem! Debate mais do que ressuscitado, pois Raul já sofria com essa, já que usar guitarra elétrica no começo da sua carreira era ser entreguista ou coisa que o valha. Não é o ideal uma aversão extrema ao que é de fora, pois diversas contribuições culturais podem ser perdidas, imagine todas as bandas sem a presença de uma guitarra elétrica. Se todos se curvam diante das belas harmonias e a rítmica brasileira é de se esperar que algo de fora também seja louvável, já que não somos o povo escolhido, assim como nenhum é. Enfim, desde 1960 a Tropicália já devorou e digeriu o rock n’ roll, falta apenas que o pedantismo pseudo-nacionalista reconheça o verdadeiro valor desta essencial manifestação cultural popular.


Abraços Partidos – Um breve comentário.

dezembro 11, 2009

Assisti esses dias ao novo filme de Pedro Almodóvar, “Abraços Partidos”. Como o título da postagem já explica vou apenas fazer um breve comentário, sem o tom noticioso que tenho utilizado ultimamente, já que as informações técnicas são facilmente encontradas em qualquer cinesite, porém, uma análise, nem sempre.

Pois bem, mais uma obra cheia de metalinguagem, cinema falando de cinema, coisa que eu gosto bastante – vide o meu gosto tarantinesco -, mas não só aí residem as qualidades do filme estrelado pela eterna musa de Almodóvar, Penélope Cruz, interpretando desta vez Lena. Que fotografia sensacional este filme possui! É algo de encher os olhos a cada momento, cada mudança de foco, cada direcionamento de olhar causado pela imagem, absolutamente soberba a experiência, mesmo se o filme fosse mudo, sem nenhuma placa de diálogos, já seria agradável.

Há cinema puro na direção, travelings extremamente bem feitos, enquadramentos belos que favorecem justamente a bela composição das cenas. Destaco uma determinada cena de diálogo em que não há corte, entre  o cineasta Mateo Blanco / Harry Caine (Lluís Homar) e seu filho, só há deslocamento de câmera, uma lição nessa estética picotada de videoclipe que utilizam incansavelmente nos “filmes” em geral, não espere por cortes frenéticos e diálogos monossilábicos, e sim pela capacidade de condensar o dramalhão latina sem ser piegas (se não é piegas, não é dramalhão, eis um problema!) em duas horas, belas interpretações e aquele sotaque tão atraente nos diálogos em espanhol, fazendo um parênteses, que coisa boa é ouvir um diálogo num filme não sendo em inglês!

O enredo, por ser não-linear se torna instigante, e foi uma escolha ajustada, pois se tornou evidente o clímax ao descobrir o motivo da cegueira e da mudança de nome do personagem de Mateo Blanco e a explicação do porquê do fracasso do seu filme, que desencadeou o seu romance com Lena, romance que trouxe inúmeras consequências por ele ser casado e ela estar num relacionamento com um dos investidores do filme. Não irei adentrar muito mais no enredo do filme, já que a idéia do texto é ser um convite e não um resumo. Mesmo assim, acredito que em certo ponto o filme se tornou um tanto enfadonho com o pecado de explicar demais, mas não é nada que prejudique a obra em geral, um bom filme com um enredo bem amarrado e belo trabalho de direção.


My son…

dezembro 10, 2009

…this is it. Pois é, finalmente cá estou eu livre dos afazeres mil, livre para escrever coisas e tal. Confesso não ter dado atenção suficiente a este blog, que é uma das coisas que eu mais tenho gosto. Indo ao que interessa: como ultimamente tenho dado uma ênfase nos textos de crítica e avaliação de cinema e música vou seguir um pouco com isso, sem, porém, deixar de lado os meus textos nonsense, mas ok, isso é para depois. Assisti recentemente, Abraços Partidos, de Almodóvar, previamente digo que gostei do que vi, vi um cinema de verdade, apesar de não ser aquilo de mais genial que o diretor já produziu.

Seguindo esta trilha, também falarei em breve do filme Cães de Aluguel. Depois de ter assistido Pulp Fiction, Kill Bill (os dois volumes) e Bastardos Inglórios busquei na locadora o filme que deu notoriedade ao nosso Roger Federer dos cinemas, e gostei bastante também, o Wayfarer do Mr. White é sensacional! Meus filhos, é isso aí… acalmem-se (se bem que não tenho lá muita certeza se estava sendo aguardado).


A arte também em outras mãos

dezembro 8, 2009

Tradicionalmente a aura que a arte contém fica restrita a quem tem uma maior exposição e reconhecimento. No mundo musical isto não é diferente, já que é muito mais fácil se lembrar dos Rolling Stones, de Raul Seixas, de Eric Clapton do que daqueles que produziram os instrumentos através dos quais eles expressam sua arte. Luthier é o nome do profissional que produz instrumentos musicais, a palavra é de origem francesa por falta de termo correspondente em português.

Antonio Stradivari, luthier dos famosos violinos Stradivarius é uma grande exceção, pois se tornou muito conhecido e suas obras ganharam status de produção artística, mas, sem dúvida, há muito mais artistas reclusos dentros das suas oficinas, produzindo obras únicas. As fotos trarão imagens do processo de construção de um contrabaixo elétrico totalmente personalizado, logo, feito com muito esmero e cuidado, o que resulta num belo trabalho.

Ensaio fotográfico produzido na disciplina Oficina de Audiovisual.

Fotos do ensaio:  http://www.labfoto.ufba.br/wpg2?g2_itemId=11945