Análise do filme “O Leitor”

fevereiro 20, 2009

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Ontem, quinta-feira de Carnaval, assisti ao filme “O Leitor”, do diretor Stephen Daldry, filme indicado para 5 premiações do Oscar : Melhor filme (não deve levar); Melhor atriz com Kate Winslet (este deve levar); Melhor diretor; Melhor roteiro adaptado, por ser baseado num livro homônimo; Melhor fotografia. Sinceramente só o de atriz tem minha aposta, mas se o normal e cansativo O Curioso Caso de Benjamin Button recebeu 13 indicações, é possível.

 Michael Berg (interpretado, quando jovem, por David Kross, e adulto, pelo infeliz neste trabalho, Ralph Fiennes, pois manteve a mesma expressão do início ao fim) é um estudante de 15 anos,  membro de uma família tradicionalmente estóica alemã, tão cheia de virtudes e valores morais. No bonde, no trajeto de retorno ao lar, passa mal, salta do bonde e é ajudado por uma mulher desconhecida que o encaminha para casa. Lá é diagnosticada uma doença que prende Michael em casa por três meses. Terminada essa reclusão, ele resolve agradecer à mulher que o ajudou : Hanna Schmidt, personagem na casa dos 30 anos, interpretada lindamente por Kate Winslet (Alias, qual o motivo de toda personagem feminina alemã ser chamada de Hanna ou Gertrudes?). Em pouco tempo iniciam um tórrido romance, de iniciação dupla : sexual de Michael, e literária de Hanna, já que Michael lia para ela nos encontros, pelo fato não revelado inicialmente da incapacidade de ler dela. 

De início, o filme é bem interessante, sem pudores e exposição de inúmeras questões. Certamente a nudez da bela Kate Winslet, que anda contramão da magreza extrema, é um grande atrativo, mas sua interpretação ainda é mais, o que justifica sua indicação ao prêmio mais famoso do cinema. O uso do sotaque alemão e a criação de uma personalidade confusa e imprevisível para Hanna foi digna da sua capacidade. Espero que dessa vez leve a estatueta, pois já foi indicada anteriormente cinco vezes, sem nenhuma premiação.

O roteiro peca por perder coerência no meio para o final, o limite entre criminalidade e apenas cumprir ordens fica apenas subentendido. O porquê da personalidade arredia e contraditória de Hanna não é revelada, fiquei com a impressão de que o analfabetismo dela é uma das razões. A relação de Michael com sua filha é apenas vista como confusa e mais nada. Poderia ser suprimida da narrativa,e sobre a Segunda Guerra Mundial nada é tocado, apenas uma visita a um campo de concentração vazio. Nem possíveis cenas do “Third Reich” foram sequer sugeridas. Faltou abordar o conflito familiar. A cena do julgamento tem um tom demasiado romântico, pois o acaso põe os dois próximos novamente. O final da visita ao túmulo também é desnecessário, nada acrescenta.

No fim, a história é rasa, sem fundamentação. Lançaram vários fios de debate, mas faltou o tear. Uma casa feita na areia. A idéia que é muito boa não foi bem aproveitada. Uma pena, poderia ser um filme grandioso,porém faltou análise histórica e psicológica mais profunda, o crescimento do enredo seria notório. Mas tudo bem, perto dos blockbusters é de bom tamanho. É um bom entretenimento.

 

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Lobotomia coletiva

fevereiro 11, 2009

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Mais uma tendência do senso-comum me irrita.  Há uma guinada na indústria do entretenimento para o público adolescente. Uma festa para os grandes produtores. Os teenagers compram tudo relacionado à franquia amada sem pudor : camisas, revistas, materiais escolares, peças íntimas… Jonas Brothers, Harry Potter, Hannah Montana, High School Musical e o mais recente Crepúsculo exemplificam esta safra, safra bem-intencionada e comportada. Até aí tudo beleza, é a felicidade dos pais preocupados! Mas os valores passados nos filmes, músicas e livros direcionados são deprimentes, perigosos e altamente desestimulantes.

Os fenômenos juvenis seguem alguns padrões,algumas linhas-gerais : Ausência de atitudes “condenáveis” como violência, palavrões e falta de educação com os pais; amor idealizado, distante e etéreo (o máximo da realização terrena é um beijo no final, e não é o francês);  o “herói”, a princípio, deve ser um desconhecido sem função da sociedade, mas adquire importância com algum dom magnífico que deve ser mantido em sigilo, seja fantasioso ou não (característica tal mais comum em narrativas). Isso tudo agrada aos pais que ficam tranquilos ao verem suas crianças com anéis de pureza e assistindo a filmes de vampiros bondosos.

O próprio termo “jovialidade” dá a noção de ímpeto contestador, da força de mudança e não-aceitação do já determinado. É essa a grande geração moderna, a geração superior sem erros? Rock cristão com anelzinho fresco de pureza? O rock é dionisíaco, como Raul já cantava! São seres medrosos atrás do MSN e de uma vida virtual, esperando uma carta de Hogwarts ou entrar para um colégio onde todos são cantores, onde gordinhos, negros, homossexuais, brancos, nerds e riquinhos se dão todos bem. Depois de inúmeros coquetéis molotov, queima de sutiãs, Woodstock ’69, Contra-cultura, deparo-me com toda essa coerção moral imbutida em historinhas divertidas, o mais puro conservadorismo retrógrado e alienante “for childrens”. Vamos fazer faixas, queimar prédios públicos e cometer atentado violento ao pudor! Recatados lobotomizados, reclusos retardados não serão aceitos.

“Então ‘EVÉRE BODE’ Rock…”

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Pseudo-redenção musical.

fevereiro 8, 2009

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Demorei a me pronunciar sobre o “fenômeno” musical semi-folk tosco. Geralmente sou avesso a essas revelações juvenis, ainda mais quando super-dimensionam alguma dosezinha de não-clichê-pop radiofônico. Sim, falo de Mallu Magalhães. Obviamente, é uma criação midiática, com os trejeitos inacreditavelmente pueris e letras que beiram o nonsense, sobre vacas que voam, estrelas sorrindo e similares. A moça em si não faz um trabalho ruim, mas elevá-la a um patamar de redenção da música brasileira é absurdamente exagerado, pois nem música brasileira ela faz, o folk de Bob Dylan e Johnny Cash, os quais ela regurgita, não são exemplos musicais brasileiros, e outra : Raul em 1973 já fazia o mesmo, com genialidade, na música “Ouro de Tolo”, um “Tapanacara” da classe média alienada no contexto do “Milagre brasileiro” de Médici. É evidente que a técnica vocal de Mallu ainda é incipiente, mas possui condições de melhora. Largando essa imagem de menina que ainda assiste Ursinhos Carinhosos, talvez haja salvação. 

Acompanhem trecho de uma matéria veiculada no site do canal de televisão Multishow, sobre a reação da nossa afamada Mallu a um “cumprimento ” com o dedo médio que um rapaz na platéia fez para ela:

 

Alguém na platéia mostrava o dedo médio para a cantora, que foi de tchubaruba a tiririca em questão de segundos. Para tudo e ela fala: ‘Ele tá me xingando! Por que você tá me xingando?’, pergunta, incrédula.

Ficou todo mundo bobolhando. Ok. Mallu explica: ‘Tem um menino ali que tá mostrando o dedo médio pra mim!’, reclama, abismada, e prossegue: ‘Por que você tá fazendo isso? Por que você tá me xingando? O mundo é de paz! Se você não gosta, não ouve, vai pro outro palco!’, avisa.”

 

A único trecho coerente é o “Se você não gosta, não ouve, vai pro outro palco!”. Essas crianças…

Ps.: Raul também fazia uso de uma imagem construída, a de “Maluco Beleza”, mas seu talento o redimia completamente.

Pps.: A moça é até bonitinha, tomara que pare de desafinar.

Ppps.: Não usei acordo gramatical nenhum, esses hífens ainda me matam!

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Back in the Village

fevereiro 5, 2009

Após uma longa ausência, ocasionada pelos estudos do pré-vestibular, retorno ao blog. Espero que não aconteçam mais intervalos tão grandes por causa de compromissos próprios, mas ao menos, este foi de grande utilidade, pois consegui ser aprovado no curso de Comunicação Social na UFBA (Sim! Em alguns anos deixarei de ser aspirante a jornalista!). Gostaria então de discorrer um pouco sobre essa experiência, antes dos exames, no próprio exame, na expectativa pelo resultado e um pouco sobre depois dele.

Bem, como reza o senso-comum, o todo é estressante, não raras são as situações em que se beira a insanidade, e a minha tendência ao hiperbólico facilitou bastante as crises! Mas foi útil, pois funciono melhor sob pressão, e ainda “morrinhou” na mente a ideia da prova, de avaliação, como se fosse possível julgar alguém apto a ingressar numa faculdade com algumas questões em algumas horas apenas. Das crises, as mais recorrentes foram os ataques violentos de mau-humor, além de outras flutuações emocionais bizarras. Tenho dó dos que conviveram comigo o ano de 2008! Contudo, a mais insólita, foi a ocorrida na noite anterior ao primeiro dia de prova da primeira fase : Um acesso de coceira interminável! Só consegui dormir duas horas no total, e fiz a prova impulsionado pelo café forte matinal.

Concluída a primeira fase, consegui fazer um prognóstico sobre o resultado. Pela pontuação estava garantido na fase seguinte, logo me inscrevi na revisão da segunda fase. O espaço de tempo entre a primeira fase, resultado dela e o início da segunda fase correu num fluxo frenético e numa confusão mental de retoques e últimas anotações que sequer posso descrever, devido ao lapso que se instalou.

Então, fui “em direção ao destino” (mais clichê impossível!), com mais um drama incluído : Gripe na hora da prova! Levando em consideração ter estado três anos com a saúde perfeita e minha índole racionalista, posso dizer que foi um evento infeliz! Mas não chegou a atrapalhar, as provas com questões abertas aparentaram ser demasiadamente simples, e respondi quase de maneira automática, depois de tanto praticar. O saldo final é esse, um número de inscrição e seguir os conceitos pré-determinados pela universidade desejada, mesmo que ela siga ideais “avançados e modernos”. Entretanto, o que a pós-modernidade prega é justamente a falta de verdade absoluta. Há diversas indiossincrasias e até uma postura conservadora e totalitária pode ser aceita e tomada como correta em um determinado contexto. Todavia, aceitemos…

O suplício na espera pelo resultado foi triste, transmutação em um ser semi-vivo capaz de apertar F5 no site do vestibular da UFBA. Dia 31 de janeiro deste ano, finalmente, saiu o resultado. Ovo quebrado na cabeça (confundiram com aniversário), choro da vó, choro da mãe, almoço em restaurante (coisa rara) e uma alegria fugaz.

Ps.: O texto segue as regras do novo acordo ortográfico (frescura lusófona para vender mais livros)!

 

Back in the village again.