Pois é, continuo sofrendo do mesmo mal da falta de continuidade, porém, não do esquecimento. Sigo então com a análise dos meus cinco álbuns preferidos, álbuns essenciais para minha formação musical, como apreciador e músico de fato. O Iron Maiden, como já citei diversas vezes neste blog, é minha banda preferida e muito do que hoje componho tem um quê do Iron, tanto na parte musical como na temática das letras, que me fascinou desde o princípio com seus temas existencialistas, épicos e históricos.
O Iron Maiden, sempre capitaneado pelo baixista e fundador do grupo Steve Harris, iniciou suas atividades em 1976, mas só gravou seu álbum de estréia em 1980, com um título homônimo. Após algumas trocas de integrantes e ter alcançado o estrelato mundial, com o ápice na memorável World Slavery Tour, do disco Powerslave, lançado em 1984, o Iron Maiden buscou novos rumos e uma adequação às tendências musicais da época, o que gerou o disco Somewhere In Time, numa fase experimental.
Assumo que há uma grande memória afetiva pessoal em relação a este álbum, mas sua riqueza artística vai além de uma boa lembrança. Exatamente neste álbum, de 1986, o Iron Maiden passou a utilizar sintetizadores nas suas músicas, o que até então não havia ocorrido, já que o quinteto prezava por um som cru, direto no amplificador. Este novo recurso causou desconfiança nos fãs, contudo, o clima futurista baseado no cult Blade Runner deu uma aura completamente diferenciada ao trabalho, bem oitentista, o que, particulamente me agrada muito, já que sou um apreciador confesso da década.
A faixa de abertura, Caught Somewhere In Time já leva o ouvinte diretamente para os anos 80, e o timbre da guitarra, apesar de perder força nos powerchords ganha muito para execuções melódicas, com aquele timbre sem médio e muita ambientação com echo e reverb. É uma música empolgante, galopada e cheia de solos e dobras de guitarras, como é habitual no Iron Maiden.
A canção seguinte foi um dos singles do álbum. Wasted Years é uma música belíssima, composta pelo guitarrista Adrian Smith, e seu clima nostálgico fez com que ela se tornasse por muito tempo minha música preferida. A linha melódica do final do solo de guitarra, em choque proposital com o início do refrão é uma das coisas mais fantásticas que pude presenciar na música. A letra trata da solidão das turnês, o que já dava indícios do cansaço de Adrian Smith, que deixou a banda em 1990, após a turnê do disco Seventh Son of a Seventh Son, para retornar nove anos mais tarde.
Sea of Madness, terceira faixa do álbum, é outra composição de Adrian Smith, e possui um clima extremamente melódico e melancólico, como é típico das composições do guitarrista. Mais uma vez, o solo é algo digno de destaque, já que Adrian Smith e Dave Murray pareciam estar no máximo da sintonia musical, além do vocal extremamente competente de Bruce Dickinson e a base consistente fornecida por Steve Harris e Nicko McBrain.
A música seguinte, Heaven Can Wait é outra música memorável na carreira do Iron Maiden. Com seus mais de sete minutos de duração, uma experiência de quase morte é narrada de forma poética e não há muito o que falar dela, trata-se de outro clássico imortal, uma música absolutamente soberba, empolgante, épica, em suma, tudo aquilo que só a Donzela de Ferro é capaz de proporcionar. Detalhe para o coro no meio da música, cantado por um grupo de pessoas que conheceu a banda num bar e foram chamadas para gravar este trecho. O nome do bar está escondido na capa do disco, entre inúmeras outras referências dentro da ilustração de Derek Riggs.
The Loneliness of the Long Distance Runner é uma composição de Steve Harris e se baseia num filme, já que o baixista é um grande apreciador de cinema e literatura. Segue a tendência das músicas longas em relação ao padrão comercial, com as dobras de guitarra e todas os caracteres próprios do Iron Maiden. O Somewhere In Time é talvez o álbum que melhor represente o heavy metal diferenciado que o grupo faz.
Stranger in a Strange Land, outra composição de Adrian Smith, é uma música que destoa do ritmo até então acelerado do disco, é o segundo single do álbum, e possui uma melodia incomum, e o solo mais belo de todo o disco. O timbre recheado de ambientação reforçou bastante a intenção melódica e poética da composição.
Déjà-Vu é a única composição de Dave Murray do disco, em parceria com Steve Harris, e como fica evidente, trata da sensação do déjá-vu, sensação de já ter vivido ou visto algo antes diante de algo novo. Acredito que esse é a música mais fraca do disco, mas é um bom aperitivo para o que vem a seguir, a épica e magistral Alexander, the Great, que narra a vida de Alexandre, o Grande, e dispensa maiores apresentações, o porém é que esta música nunca foi executada ao vivo, mesmo sendo sempre lembrada pelos fãs. Com tudo isto, o Somewhere In Time é um disco ímpar para o Iron Maiden e para o Heavy Metal, que merece ser recordado sempre. além de ser posto no seu devido lugar de destaque ao qual ele foi preterido por muito tempo.